pedacinho de xis
Sozinha, enquanto comia um xis ali no Beco eu me
lembrei dos tempos de criança e do tanto que era divertido quando o pai chamava
a gente pra ir pro centro comer um "cachorrão". Era assim que ele
dizia. E lá íamos nós: eu, ele, a mãe e as gurias. Aquilo era um acontecimento!
Outros tempos, mas bem difíceis e de pouco dinheiro. Por ser raro tal momento,
era uma algazarra durante todo o trajeto de quatro quilômetros da vila até o centro e, no banco de trás do
velho Del Rey 81, que em outras vezes ficara pelo caminho, nossos risos
saltavam fáceis de nossas bocas e se perdiam pelas janelas.
Naquele
tempo, o pai e a mãe trabalhavam juntos no frigorífico. Na desossa. Vida
sofrida. De segunda à sábado. Às vezes, de madrugada quando trocavam turnos. Chegavam
sempre exaustos. Na parte da tarde depois da escola, eu cuidava das gurias, da
casa... dos temas. Eu era irmã e mãe ao mesmo tempo. De noite, eu fazia um
bico. Numa locadora de filmes. Assisti vários lançamentos. Das 19 às 23. Aproveitei
o máximo que pude, nós não tínhamos videocassete em casa. Eu vi Titanic, Impacto Profundo.
Central do Brasil! Este eu vi no cinema e de graça. A escola levou a turma do
sétimo ano.
Hoje, não
somos mais assim. O pai se foi. Antes disso deixou um bom legado. O frigorífico
tornou-se apenas uma lembrança. A granja de suínos vai de vento em polpa mesmo sem ele aqui. E eu não sei por qual motivo isso agora. Saudades, eu acho.
No último pedacinho do xis... saudade da singeleza do convite. Da simplicidade que eu não
sinto mais em quem ficou aqui. Crescemos, estudamos... ganhamos a vida.
Ganhamos? Porque é só um pedaço de xis de vinte e poucos pilas num cachorrão qualquer.
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